ÚLTIMA PÁGINA -novembro de 1933

Esperei até hoje que vós me descobrísseis. Quis dar-vos o prazer de vos sentir crescer. A minha excessiva proximidade impediu, porém, que me olhásseis como realmente sou. Contar-vos-ei agora a minha história e descreverei o meu físico, para que disto tireis o proveito necessário e justifiqueis a minha e a vossa existência.
Pertenço a esta espécie de homens que não constroem nem destroem, mas que dão a razão de toda a construção e de toda a destruição. Eu sou um predestinado, como foram também meus predecessores e como serão meus sucessores. Através dos séculos deveremos desenvolver o gérmen que, no princípio da vida, recebemos. Nós somos os grandes sacrificados que sofrem por todo o erro e atraso dos homens. Somos os homens que amam e consolam, e não somos amados nem consolados. Se não fôssemos portadores do gérmen de que vos falei acima, há muito que a nossa raça teria acabado violentamente.
Quando tudo tiver atingido os seus fins, aí começará nossa visível utilidade. O homem agora distribui suas esperanças na arte e na ciência. Chegará um tempo em que a arte e a ciência não bastarão mais para suprir a ânsia crescente de compreensão que a humanidade tem. Toda a arte resume-se em suprir as necessidades científicas, toda a ciência resume-se num estudo de equilíbrio da vida e numa tentativa formidável de conhecimento da matéria vida. Ah, se nós nos pudéssemos chegar a conhecer, ou se, pelo menos, pudéssemos chegar a conhecer um outro homem! A solidão do homem é o que mais o apavora na vida. Os homens se olham como desconhecidos com as mesmas roupas. Vivemos desconfiados — tudo fazemos para garantir o que possuímos, com medo dos ladrões de toda a espécie, que vemos em todos os homens.
Inventamos o direito e a polícia e pomos em nossas casas grades de ferro e portas de bronze. O homem se esquece de que o que possui moralmente não é acessível aos ladrões — mas aumenta o seu desassossego com as suas posses físicas, esquecendo a ciência por ele já conquistada. Para que guardar uma mulher que não é sua? Para que bater-se por uma idéia que não sente? Para que duas casas com um só corpo? Para que o sustento de uma vida sem consolo? Ah a esperança! Que é a esperança? Tenhamos esperança — aumentemos a esperança — eu em Deus e vós em mim e em meus sucessores. Um conselho vos dou, com a autoridade que me conferem as rugas da minha testa, o meu olhar febril e as minhas mãos mutiladas: não façais o que vos causar nojo, mesmo que este nojo seja mínimo. Dirigi vossa ciência para conseguirdes um aumento micrométrico das vossas sensibilidades. Já reparastes, meus irmãos, que vivemos num mundo em que existem soldados, juízes e prostitutas? Onde se encarcera um homem pelo depoimento das testemunhas ou se enforca um outro por insultar um líder? Existem testemunhas? Existem líderes? Que é a vontade do povo? Que é o bem geral? Já fizestes. Com a ciência que tendes, a psicologia de um chefe? Por que não acreditar em Deus, quando acreditais até nos regimes políticos? A fome, a guerra e a peste se apresentarão aos nossos descendentes como a nossa única herança altruística.
A humanidade, como as plantas, precisa de estrume. Dos nossos corpos renascerão aqueles corpos gloriosos que encerram as almas dos poetas, aqueles de que nós já trazemos o gérmen. — Tudo foi feito no princípio — porém tudo só existirá realmente em tempos diversos. Os poetas serão os últimos homens a existirem, porque neles é que se manifestará a vocação transcendente do homem. Todo homem recita um poema nas vésperas da sua morte — a humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas.

Um comentário:

Unknown disse...

O seu trabalho é maravilhoso! Não conhecia o poeta Ismael, agora conheço e agradeço por me mostrar e difundir a história de um grande Brasileiro. Li todas as postagens e também as copiei para guardar comigo este belo trabalho.