
Acordei hoje com a desagradável e estranha sensação de que sou o único ser humano sobre a superfície da terra. Os outros homens me parecem animais que nenhuma relação poderão estabelecer comigo. Olho-os com uma indiferença notável — nem mesmo a profunda piedade que costumo ter por eles estou sentindo hoje. Recordo-me de fatos da minha vida, como se fossem histórias que me contaram. Noto que não me deixaram marca nenhuma. A vida para mim está me parecendo a coisa menos importante deste mundo. Poderei continuar a viver como poderei morrer neste instante. Isto me é absolutamente indiferente. Não sinto a necessidade de me mover nem de tomar resoluções. Uma senhora passou e me cumprimentou. Confesso que não a reconheci. Meu espírito está vagando sem curiosidade alguma sobre todas as coisas e idéias. Talvez por hábito. As vozes das pessoas que estão perto de mim me parecem ruídos sem nenhuma significação, como, por exemplo, o barulho que está fazendo a água na caixa do banheiro. Olhei-me no espelho e achei excessiva a anatomia do meu corpo, sobretudo da minha cara. Para quê olhos, para quê boca, para quê nariz? Minha barbicha no queixo me parece mais inútil do que um seio para uma mulher que não foi mãe. O homem deveria ser uma bola com pensamento. E das mulheres, o que penso eu hoje? Nada! Aliás sempre pensei nelas muito pouco. Só costumo pensar no que me interessa. Creio que não existem neste mundo três mulheres que me possam interessar — pelo menos ao ponto de pensar nelas. E dos homens, que penso eu? Penso que foram feitos para as mulheres, muito mais do que o contrário. E de mim? Creio que eu seja uma coisa qualquer sem classificação, apenas com uma aparência humana. Será que minha inapetência pela vida seja resultado de falha de compreensão dela? Não creio! Creio mesmo o contrário. Mais do que o instinto de conservação, penso que seja a curiosidade a mola que nos impele para a vida — digo isto por experiência própria. Tenho a impressão de que nada mais poderei aprender a descobrir na vida. Esta deve ser a única razão do meu desinteresse por ela e do meu profundo desânimo. E a outra vida, como desejaria eu que ela fosse? Um repouso eterno numa paz infinita? Não! Isto mais ou menos foi o que eu sempre tive!... Eu queria que ela fosse a correição da minha vida da terra numa progressão infinita. Eu sou bastante medíocre!
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