POEMA (1933)

Nossa filha não saiu a nós, nem é parecida com ninguém que conhecemos. Ela é perfeitamente inédita de alma e de corpo. Repara como corre por aquele gramado com um ar de quem procura qualquer coisa que já encontrou sem saber. Por que será que os homens só a desejam da cintura para cima? Por que será que os velhos são acometidos de acessos de riso quando a vêem? Por que será que as crianças fazem manha quando ouvem sua voz? Já reparaste que as roupas que ela despe sujas estão sempre esverdeadas e sem cheiro algum? Eu sinto uma espécie de pavor metafísico quando ela sorri para mim, e quase desmaio de gozo quando ela me chama: Papai! — Não concebo um neto meu vindo dela, pois acredito ser o seu ventre maciço e de uma matéria parecida com a do meu cérebro. De resto, ela não aceitaria homem, porque nem os percebe, e, mesmo que os percebesse, seria com nojo e desprezo. Em compensação, nosso filho já perdeu o cheiro do nosso lar e traz para seu leito, de madrugada, no seu corpo, o cheiro de todas as mulheres com que ele gastou o dia; e nós gostamos de cheirar seu travesseiro todas as manhãs. As amantes dele parecem-se sempre contigo e dão sempre presentes a nossa filha, que os aceita com a satisfação de quem recebe um presente do noivo. Nossa filha se casará um dia em que seu irmão for assassinado por uma mulher de tipo oposto ao seu. Nós temos em verdade um filho só neste casal.

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