A VIRGEM IMPRUDENTE (1932)

Que incrível loucura a tua, ó virgem imprudente, que fez com que extinguisses a lâmpada do teu espírito antes de te teres encontrado em mim! Que incrível loucura a tua, ó virgem mil vezes imprudente, que te forçou a esgotar os homens na minha fácil procura! Não viste que eu estava em tua frente?! Não sentiste os impulsos do teu ser que te empurrava para mim como uma forte e invisível mão?! Por que gastaste tua mocidade e amoleceste tuas carnes na vã experiência dos outros homens? Não tinhas a prova do teu erro no teu desânimo e no teu crescente cansaço? Por que insististe violentamente nos beijos que só aumentavam tua insaciabilidade, e nos carinhos ofensivos e sem significação que recebias? Nasceste para mim, ó desgraçada virgem! Irias sentir agora que só nos meus braços caberias sem folga — que só em frente a mim sentirias o prazer do impudor — que só meus beijos te saciariam e que só os carinhos da minha mão te seriam agradáveis e te poderiam revelar o sentido real da tua forma, desperdiçada e gasta por todos os que te tiveram. Sentirias agora a paz da verdade e a alegria de quem se perpetua nos frutos do seu amor. É tarde, porém — chegaste a mim exausta, dilacerada e quase extinta. O meu contato faria sangrar de novo todas as feridas do teu corpo; e teus olhos acostumados às trevas, cegariam com a luz ou veriam então o terrível nojo que eu sentiria de encontrar em ti o vestígio dos outros. É tarde demais! Só uma idéia ainda nos pode consolar: foste usada mas não possuída. És ainda virgem, ó virgem imprudente e louca.

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