A VIRGEM PRUDENTE (1932)

Na noite das nossas núpcias eu não me apresentarei a ti com este meu ar solene de profeta. Desmancharei as rugas da minha fronte e transformarei a linha severa da minha boca, que sorrirá. Nessa noite compreenderás todo o teu grande significado e terás com isto uma alegria imensa. Possuir-te-ei como mulher alguma foi por homem algum possuída. O mundo todo será reduzido ao nosso quarto nupcial. Seremos insensíveis ao tempo. Dormirei depois ao teu lado o sono dos justos, e tu acordarás de vez em quando para me olhares. Sentirás uma estranha sensação em me veres de perto e abrirás os meus olhos com os dedos, como se abre os de um morto, para te veres neles. O cheiro da tua carne, no qual nunca reparaste, misturado com o da minha, te inebriará — e na minha ausência beijarás os teus braços e te farás carinhos como se fosse eu. No dia seguinte, a cada passo dolorido que deres, sorrirás com a lembrança de que foste minha, e te consolarás na minha ausência. Como sabes, deverei partir na madrugada da noite de nossas núpcias.

Nenhum comentário: